Por Eduardo Campos, Alex Ribeiro, Antonio Perez e Silvia Rosa | De Brasília e São Paulo – 10/10/2013 às 00h00
Para a economista Tatiana Pinheiro, do Santander, plano de voo do Copom deve ser o de uma redução na velocidade do ajuste da taxa básica de juros. Numa decisão amplamente esperada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central subiu o juro básico da economia em 0,5 ponto percentual, de 9% para 9,5% ao ano. E indicou que o aperto monetário iniciado em abril terá continuidade na reunião de novembro.
O breve comunicado divulgado após a reunião diz que: “Dando prosseguimento ao ajuste da taxa básica de juros, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 9,50% ao ano, sem viés. O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano”. Essa é quarta vez que o colegiado repete a mesma redação.
O colegiado tem mais um encontro em 2013, em 26 e 27 de novembro. Com a repetição do comunicado é possível que o mercado caminhe para um consenso de que a Selic pode sim atingir e até mesmo ultrapassar os dois dígitos, já que a linguagem está associada a apertos de 0,50 ponto percentual.
A ausência de alterações no comunicado sugere que o colegiado do BC manterá o ritmo e promoverá uma elevação de 0,50 ponto percentual da taxa básica em novembro, encerrando o ciclo de alta com a Selic em 10% ao ano, segundo José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. “Essa sequência de comunicados idênticos indica que o BC está em voo de cruzeiro. É muito difícil que mude o ritmo em novembro.”
Segundo ele, a decisão contribui para o fortalecimento da credibilidade do BC e para a ancoragem das expectativas inflacionárias, movimento já notado nas projeções para o IPCA colhidas semanalmente. “A repetição dissipa qualquer dúvida de que a Selic está caminhando para dois dígitos sem nenhum sinal de que as decisões tenham sido tomadas com base em algo que não seja apenas o debate técnico.”
Para o economista-chefe do Banco Pine, Marco Maciel, a decisão e a repetição do comunicado dos encontros anteriores sinalizam não apenas que a taxa básica vai terminar o ano em 10%, mas também que são grandes as chances de que o aperto monetário continue no início de 2014.
Declarações recentes do diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo, elevaram a convicção de parte do mercado de que o Copom poderia ir além dos 9,75% ao ano, “número mágico” que parecia ter se consolidado dentro do mercado como “teto” para o atual ciclo.
Ao apresentar o Relatório de Inflação de setembro, Hamilton voltou a classificar a inflação como alta e em patamar desconfortável e disse uma frase que trouxe grande movimentação ao mercado de juros: “Ainda há bastante trabalho para ser feito pela política monetária em termos de combate a inflação. Vamos ver o que o Copom vai decidir”.
Tal declaração foi vista como uma senha de que o Copom poderia, sim, elevar a Selic para cima dos 10%. No entanto, o movimento foi contido por um pronunciamento do presidente do BC, Alexandre Tombini, em Londres.
Para Tombini, houve progresso no controle da alta de preços na economia desde o começo do ano. Uma frase, em particular, foi entendida pelo como uma indicação de que o ciclo de alta de juros poderia terminar mais cedo do que tarde: “O BC observará a inflação para definir os próximos passos de política monetária”.
Para muitos, isso significa que o BC vai examinar com cuidado os dados sobre inflação e economia que serão divulgados até a próxima reunião para tomar uma decisão, sem seguir uma estratégia pré-definida. Na visão de alguns analistas, Tombini também sinalizou que poderá parar a alta de juros para esperar os resultados na inflação, ao abordar indiretamente a questão do efeito defasado das ações de política monetária – ou seja, que a alta de juros feita a partir de abril leva algum tempo para se transmitir à economia.
O Santander previa uma paralisação em 9,5% após o aumento de 0,5 ponto percentual anunciado ontem, mas mudou o cenário e acredita que o aperto prossegue. A economista Tatiana Pinheiro destacou que o discurso de Tombini na semana passada sinalizou que o plano de voo do BC deve ser o de uma redução na velocidade do ajuste da taxa.
Entre a decisão do Copom e a apresentação da ata na quinta-feira da próxima semana, Tombini fala ao público novamente. E será ouvido com mais atenção conforme os agentes buscam pistas sobre manutenção de ritmo ou possível redução. O presidente saiu da reunião do BC e embarcou rumo a Washington, onde participa de reunião do FMI e Banco Mundial além de fazer novas palestras para investidores.
Ontem pela manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que o IPCA subiu 0,35% em setembro, após avançar 0,24% em agosto. A variação ficou dentro do previsto pelos economistas do setor privado. Em 12 meses, a inflação acumulada caiu de 6,09% para 5,86%. Pela primeira vez no ano o resultado ficou abaixo dos 6%. O teto da meta é de 6,5%.
O objetivo informal do BC, declarado por Tombini, é entregar neste ano uma inflação menor que os 5,84% observados em 2012. Até agora, ele não deu, porém, indicações mais firmes de ter ambições de chegar em 4,5%.
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