https://valor.globo.com/brasil/coluna – 16/07/2026
Por Nelson Niero *
As grandes firmas do setor estão investindo pesado em inteligência artificial, o que inclui desde a automatização interna de tarefas antes feitas ‘na mão’.
No intervalo de um dos painéis da Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente, no mês passado, o presidente do Ibracon, a entidade que representa os auditores, subiu ao palco para dizer que seria publicada uma carta manifestando preocupação com a decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de revogar a obrigatoriedade da divulgação, pelas companhias abertas, de informações relacionadas à sustentabilidade, que entraria em vigor no ano que vem.
No documento, além dos auditores, associações do mercado de capitais, de governança e ligadas à academia alegavam “surpresa” com a mudança de orientação do regulador do mercado – uma vitória da Abrasca, que representa as companhias de capital aberto. Em dezembro, a entidade pediu à CVM que tornasse voluntária a adesão às normas ou adiasse a implementação por três anos, alegando aumento de custos para as empresas.
Não deve ter passado despercebido aos presentes, profissionais treinados na arte de ouvir (“audire”) e ligar os pontos, que o protesto de Sebastian Soares, presidente do Ibracon, veio num momento ligeiramente desconfortável. Minutos antes, ao fim do painel “Perspectivas globais e caminhos da profissão”, havia sido apresentado o resultado de uma enquete feita com a plateia sobre os principais desafios para os auditores. Entre quatro alternativas apresentadas, a inteligência artificial e tecnologia foi a escolha de 69% dos respondentes. Em último, sustentabilidade e asseguração ESG, com apenas 4%.
As grandes firmas do setor estão investindo pesado em IA, o que inclui desde a automatização interna de tarefas antes feitas “na mão” até a auditoria de sistemas de IA dos clientes como uma nova linha de serviços. Um levantamento publicado pelo Financial Times em maio mostrou que em 2025 os anúncios de vagas de IA feitos pelas chamadas “Big Four” – Deloitte, EY, KPMG e PwC – superaram pela primeira vez os de auditoria tradicional. Não surpreende que os profissionais que responderam a enquete estivessem mais preocupados com a sustentabilidade de seus empregos.
É certo também que há um cansaço, um relaxamento com relação aos temas que foram empacotados na sigla ESG e que por algum tempo vigiram como as tábuas incontestáveis da lei. Apenas alguns dias antes do evento dos auditores em São Paulo, a SEC, reguladora do mercado de capitais americano, revogou o que chamou de “regras excessivamente onerosas e dispendiosas que exigem que as empresas forneçam determinadas informações relacionadas ao clima”.
Fora do auditório, no saguão do Teatro Bradesco, no bairro de Perdizes, sócios de grandes firmas de auditoria e consultoria lamentavam a decisão da CVM, chamada de “retrocesso” nas rodas de conversa, com críticas ao lobby das empresas e uma alegada relação da medida com o apoio dado pela Abrasca à indicação do advogado Otto Lobo à presidência da CVM – até então, a área técnica da autarquia mantivera-se irredutível aos pedidos de adiamento da regra.
Os profissionais de consultoria e auditoria ouvidos pela coluna argumentavam que a decisão vai contra as práticas internacionais com as quais o Brasil está comprometido. O país adotou as normas internacionais de contabilidade (IFRS) para os relatórios financeiros das empresas, em vigor desde 2010. O arcabouço regulatório por trás das chamadas informações financeiras relacionadas à sustentabilidade é mais recente. O Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade (ISSB) foi anunciado em novembro de 2021, durante a COP26 em Glasgow, “em resposta à forte demanda do mercado por sua criação”, diz o site da entidade, com sede em Londres.
“Há uma crescente demanda para que as empresas forneçam informações de alta qualidade e comparáveis globalmente sobre os riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade, conforme indicado em diversas consultas com participantes do mercado”, diz o texto de apresentação da ISSB.
No Brasil, empresas como Vale, Lojas Renner e Grendene já divulgam os relatórios de sustentabilidade com base nas novas regras. Não se trata de uma tarefa simples. As empresas precisam de consultores para entender e colocar em prática as normas. E, assim como no processo das demonstrações financeiras, o trabalho tem que ser aprovado por uma auditoria independente.
Um ex-sócio de uma das “Big Four” que trabalha como consultor de sustentabilidade disse à coluna que são precisos alguns milhões para colocar o processo de pé. É uma operação complexa que envolve desde o chão de fábrica, a gestão e até a cadeias de fornecedores.
Mesmo entre as empresas em que boa parte do investimento já foi feita, a tendência agora é de reavaliação, disse um especialista em ESG presente ao evento, que já notava um clima de desmobilização.
Uma pesquisa feita pelo CBPS Hub, uma comunidade voltada para profissionais de sustentabilidade e contabilidade, mostrou que após a decisão da CVM 53% delas ainda avaliavam o que fariam com relação às informações de sustentabilidade, 29% haviam decidido cancelar a divulgação do relatório e 18% ainda pretendiam divulgar.
As auditorias, que são especialistas em contabilidade financeira, não em questões ambientais, também tiveram que investir para poder prestar esses serviços. Ninguém seria ingênuo – jornalistas e auditores não podem se dar a esse luxo – de achar que a indignação contra a decisão da CVM é fruto exclusivamente de uma preocupação com mudanças climáticas, sem nenhum componente orçamentário, por assim dizer. Os recursos já foram alocados e os profissionais já foram contratados. Se os clientes desistirem da sustentabilidade, a equação financeira também não se sustenta.
* Nelson Niero é editor de S.A. do Valor Econômico.
E-mail: nelson.niero@valor.com.br







