https://valorinveste.globo.com/produtos/servicos-financeiros/noticia – 28/05/2026.
Por Larissa Maia, Valor Investe — São Paulo
Na primeira reportagem da série, especialistas mostram como dados do sistema refinam a análise financeira e concedem crédito com mais precisão.
Como o Open Finance está mudando a análise de crédito no Brasil — Foto: Gettyimages.
Cinco anos após o lançamento no Brasil, o Open Finance começa a ganhar um novo papel no mercado: o de complementar a análise tradicional de crédito.
O sistema permite que consumidores compartilhem dados financeiros entre instituições, mediante consentimento. Com isso, bancos conseguem acessar informações mais detalhadas sobre renda, padrão de gastos, movimentações bancárias e patrimônio, o que cria uma avaliação mais precisa do perfil financeiro de cada cliente.
Na prática, o Open Finance abre espaço para uma análise mais sofisticada do que o score tradicional de crédito, baseado principalmente em histórico de pagamentos, inadimplência e dívidas em um país que, embora a maior parte da população seja bancarizada, nem todos possuem histórico de crédito.
Como funciona o Open Finance
O Open Finance permite que clientes (Pessoa Física ou Jurídica) autorizem o compartilhamento de informações financeiras entre instituições nas quais possuem relacionamento. Os dados pertencem ao consumidor, que decide se quer ou não liberar o acesso.
Além de facilitar a oferta de produtos mais personalizados — como cartões Black —, o sistema também possui outras funcionalidades, como movimentar recursos entre bancos diferentes. Mas um dos impactos tem aparecido, na verdade, na análise de crédito.
Segundo Ana Carla Abrão, diretora da Associação Open Finance Brasil, a ferramenta permite a ampliação do potencial de qualquer serviço financeiro porque “são mais informações e informações mais atualizadas e completas”. Para PJ, por exemplo, ela explica que qualquer serviço bancário pode ser prestado de forma mais eficiente e direcionada para o momento e a atual condição financeira de uma determinada empresa.
O que muda em relação ao score tradicional
Segundo Bernardo Meirelles, chefe de vendas da Klavi, empresa de inteligência de dados via Open Finance, a tecnologia permite avaliar o consumidor dentro de um contexto financeiro mais amplo.
Por exemplo: dois clientes podem ter o mesmo score tradicional, mas comportamentos financeiros completamente diferentes. Uma pessoa pode ter tido uma restrição no passado e hoje apresentar renda estável e capacidade de pagamento. Outra pode ter um comportamento de maior risco, como recorrer frequentemente a crédito e direcionar parte relevante dos recursos para apostas, diz Meirelles.
Por isso, em muitos casos, o Open Finance é usado antes ou em conjunto com os birôs de crédito tradicionais justamente porque a ferramenta ajuda a separar com mais clareza perfis que parecem parecidos em um modelo tradicional, mas que têm comportamentos financeiros muito diferentes na prática.
Com isso, as instituições deixam de fazer apenas uma análise binária — aprova ou nega — e passam a considerar comportamento, capacidade e contexto.
Ou seja, enquanto o bureau tradicional olha muito para o histórico de crédito, o Open Finance ajuda a entender a capacidade financeira e comportamento atual. Na prática, isso se soma ao score dos birôs e muda “bastante a qualidade da decisão, principalmente para clientes sem histórico robusto de crédito, negativados ou com informações incompletas nos modelos tradicionais”, diz Meirelles.
Para o mercado, diz ele, isso significa crédito mais bem concedido. Para o consumidor, significa uma avaliação potencialmente mais justa.
Bancos e Serasa já usam dados do Open Finance
O uso dessas informações já acontece no mercado. O Serasa Experian, famoso pelo “score”, afirma que utiliza dados do Open Finance para complementar informações já disponíveis no mercado de crédito.
Segundo Ricardo Thomaziello, diretor de analytics da empresa, o sistema ajuda a enriquecer a análise de perfil financeiro do consumidor e, principalmente, complementar dados de consumidores com pouco histórico de crédito tradicional, como autônomos e motoristas por aplicativo.
“Ao compartilhar suas informações financeiras, os autônomos permitem que seus rendimentos sejam parte da sua equação, o que permite a maior inclusão no sistema financeiro e ao acesso ao crédito”, explica ele. Isso ajuda a calibrar os modelos de crédito, como score e estimativas de renda, com informações mais atualizadas e assertivas sobre o comportamento financeiro do consumidor.
Na prática, o Open Finance adiciona sinais que não aparecem nos modelos tradicionais, como:
- recorrência de renda;
- estabilidade financeira;
- gastos essenciais;
- uso do crédito;
- padrão de consumo;
- investimentos;
- comprometimento da renda.
Isso permite uma análise mais granular do risco de crédito, aponta o especialista da klavi.
“Os bureaus tradicionais (como o score do Serasa) e o Cadastro Positivo têm um papel muito importante, especialmente para entender histórico de crédito, relacionamento com dívidas, pagamentos e restrições. O Open Finance adiciona uma camada diferente: ele mostra o fluxo financeiro atual e transacional da pessoa”, diz Meirelles.
Para as instituições financeiras, Meirelles pontua que a principal vantagem é melhorar a qualidade da decisão de crédito. Com dados transacionais, a instituição consegue conhecer melhor o cliente, diferenciar bons e maus riscos com maior precisão, ajustar limite, preço e prazo de forma mais adequada e reduzir perdas.
Open Finance pode aumentar chance de conseguir crédito?
Meirelles afirma que o compartilhamento de dados pode, sim, ajudar consumidores a apresentarem uma “história financeira mais completa”, especialmente em casos em que os modelos tradicionais não refletem a situação atual da pessoa.
Hoje, o Brasil tem mais de 80 milhões de inadimplentes, segundo dados do Serasa. Em muitos casos, consumidores negativados podem demonstrar capacidade de pagamento ao compartilhar movimentações financeiras via Open Finance.
“Já vimos casos em que mais de 50% das pessoas que seriam inicialmente negadas puderam ser reavaliadas positivamente a partir de dados de Open Finance, sempre dependendo da política de risco de cada instituição. Isso não significa aprovar todo mundo, mas sim tomar uma decisão mais justa e precisa”, diz o chefe da klavi.
O Serasa também afirma que o sistema contribui para ofertas de crédito e cartões mais compatíveis com o perfil financeiro do consumidor.
Open Finance pode reduzir juros?
Embora o compartilhamento seja bom para mostrar o histórico dos consumidores e conseguir mais crédito, dependendo do perfil financeiro que os dados mostram, o resultado pode não ser o esperado pelo consumidor.
Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), consumidores com bom controle financeiro podem conseguir condições melhores, incluindo taxas menores de empréstimo. Já clientes com maior risco podem não ter benefícios.
A entidade ressalta, porém, que o compartilhamento de dados não garante aprovação de crédito nem acesso automático a juros mais baixos.
Na prática, para os consumidores, a principal vantagem é ser avaliado pelo comportamento financeiro atual — e não apenas pelo histórico passado.
Isso tende a beneficiar principalmente:
- pessoas com pouco histórico de crédito;
- autônomos (que não possuem contracheque, por exemplo);
- negativados que recuperaram capacidade financeira;
- consumidores com renda recorrente, mas sem comprovação formal.







