https://valorinveste.globo.com/produtos/servicos-financeiros/noticia – 04/09/2026.
Por Laelya Longo, Valor Investe — São Paulo.
Modelo usa agentes de IA para executar tarefas e tomar decisões dentro de limites definidos pelo cliente; tecnologia pode ganhar escala em cerca de três anos.
Banco agêntico vem aí: o que muda quando seu banco passa a investir por você? — Foto: Getty Images.
O banco que hoje recomenda um investimento poderá, em um futuro bem próximo, fazer a aplicação direto pelo cliente, acompanhar os resultados e até mudar o dinheiro de lugar para cumprir uma meta definida previamente. É essa a ideia por trás do chamado banco agêntico, modelo baseado em agentes de inteligência artificial (IA) capazes não apenas de responder perguntas, mas também de executar tarefas.
Essa inovação pode parecer distante da nossa realidade, mas a tecnologia necessária para colocar parte dessas funções em prática já existe. A expectativa é que essas ferramentas tecnológicas de um banco agêntico possam ganhar escala e ficar populares em cerca de três anos, segundo Bruno Samora, diretor de produtos da Matera, empresa de soluções tecnológicas para o sistema financeiro que participou da criação do Pix.
Em entrevista ao Valor Investe durante a Febraban Tech, Samora compara essa mudança de atuação à experiência do GPS para o carro autônomo. O GPS sugere o caminho para um lugar determinado pelo usuário. O carro autônomo leva até lá. Da mesma forma, hoje, o cliente informa ao banco que quer investir, recebe sugestões de produtos adequados ao seu perfil e precisa decidir o que fazer com elas. No banco agêntico, poderá apenas informar aonde quer chegar.
“Eu posso falar: quero que você faça a gestão das minhas finanças, investindo 20% da minha receita em investimentos que tenham baixo risco”, exemplifica Samora.
A partir das orientações e dos limites definidos pelo cliente, o sistema do banco poderá escolher os investimentos, fazer as aplicações e ajustar a estratégia ao longo do caminho. Em vez de pedir especificamente a compra de um CDB, por exemplo, a pessoa poderá estabelecer uma meta de retorno e o nível de risco que aceita correr.
“O agente vai executando a rota como um carro autônomo, ajustando o caminho”, afirma Samora.
Do conselho à execução
Essa capacidade de agir é justamente o que diferencia os agentes de IA das ferramentas com as quais o consumidor já está mais familiarizado. Em um chatbot tradicional, a pessoa faz uma pergunta e recebe uma resposta. Um agente recebe um objetivo e pode executar diferentes tarefas para alcançá-lo.
No sistema financeiro, isso significa uma mudança importante: a tecnologia deixa de apenas recomendar uma decisão para também poder executá-la.
Samora afirma que a barreira para essa transformação hoje não é tecnológica. Para que os bancos entreguem mais autonomia aos agentes, será necessário construir confiança entre instituições e clientes, especialmente porque as decisões envolvem dinheiro.
Por isso, a tendência, segundo ele, é que o banco agêntico avance aos poucos, começando por tarefas mais simples antes de chegar a situações como a gestão autônoma dos investimentos. “Acho que em três anos vamos ver essas aplicações em escala, robustas. Já vemos alguma coisa menor hoje, mas acho que em três anos não vai ser nem assunto mais”, diz.
Quem controla o que o banco pode fazer?
Dar autonomia para uma tecnologia movimentar o dinheiro do cliente também exige limites. Samora aponta três pilares para o funcionamento do banco agêntico: uma infraestrutura robusta de dados; os chamados guardrails, regras que determinam até onde o agente pode ir; e o registro das decisões tomadas.
Esse histórico permitiria, por exemplo, verificar por que o dinheiro foi aplicado em determinado CDB e não em outro ou por que o agente decidiu investir parte dos recursos em ações.
Os limites, ressalta Samora, precisam ser definidos previamente. Embora consiga analisar o contexto e adaptar suas decisões para buscar um objetivo, o agente de IA não teria liberdade irrestrita para agir.
A mesma lógica pode chegar às tarefas mais corriqueiras. Um agente poderia receber a ordem de comprar um produto por até determinado preço, procurar uma loja, escolher a forma de pagamento e concluir a compra, inclusive fazendo um Pix. “Parece ficção científica, mas já é um caso de uso plausível”, afirma Samora.



