https://valorinveste.globo.com/blogs – 23/01/2026.
Por Carlos Heitor Campani * – Rio.
Carlos Heitor Campani.
Este texto conecta a gestão de suprimentos ao desempenho financeiro por meio da lógica de supply chain.
Olá, pessoal.
Este artigo, desenvolvido em parceria com a Camila Affonso, sócia do Leggio Group, e Joseph Boukai, consultor do Leggio Group, especializados em estratégia e transformação de Supply Chain, trata de um tema central na cadeia logística de diversos setores: a gestão de estoques. Este texto conecta a gestão de suprimentos ao desempenho financeiro por meio da lógica de supply chain. O objetivo é demonstrar que o estoque transcende a operação: ele é uma variável crítica que impacta diretamente a margem, o capital de giro e o lucro operacional. Ao analisar as demonstrações financeiras, torna-se claro se o estoque está atuando como proteção para a operação ou como um dreno de rentabilidade.
GESTÃO DE ESTOQUES: ENTRE A CONTINUIDADE OPERACIONAL E A EFICIÊNCIA FINANCEIRA
O estoque existe para sustentar o nível de serviço e garantir a continuidade operacional, mas, sem disciplina, pode converter-se em um dos ativos mais onerosos do balanço. Em essência, ele compreende o conjunto de bens (matérias-primas e itens em processo a produtos acabados e peças de reposição) mantidos para viabilizar o ciclo de vendas.
Sua finalidade estratégica é garantir disponibilidade e estabilidade: ele absorve oscilações de demanda, protege a produção contra gargalos de lead time e viabiliza economias de escala. Se, por um lado, o estoque evita rupturas e perda de receita, por outro, o crescimento desordenado drena o capital de giro, exige infraestrutura dispendiosa e eleva o risco de perdas por obsolescência, avarias ou furtos.
Na prática, a gestão eficiente exige a compreensão de suas cinco categorias fundamentais:
- Estoque de Ciclo: Sustenta a operação regular entre os intervalos de reposição.
- Estoque de Segurança: Atua como proteção contra incertezas na demanda e variações de entrega dos fornecedores.
- Estoque Pulmão (Buffer): Minimiza os impactos da variabilidade interna entre as etapas produtivas.
- Estoque Especulativo: Formado estrategicamente ante a expectativa de alta nos preços ou riscos de escassez.
- Estoque em Trânsito: Ativos já expedidos ou transferidos que ainda não atingiram o ponto de consumo.
O IMPACTO DO FLUXO DE ESTOQUES NAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS E NA PERFORMANCE OPERACIONAL
A metodologia de “saída” do estoque é determinante para o reconhecimento de custos, impactando diretamente as margens, a carga tributária e a comparabilidade entre organizações. Sob as óticas contábil e gerencial, os métodos de valoração definem a ordem de baixa no ativo e o consequente impacto na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).
Os modelos de valoração e timing de custo mais difundidos incluem:
- FIFO (PEPS): O primeiro a entrar é o primeiro a sair.
- LIFO (UEPS): O último a entrar é o primeiro a sair.
- Custo Médio Ponderado: Calculado pelo valor médio de cada item em Estoque. Suaviza a volatilidade de preços.
- Identificação Específica: Utilizado para itens de alto valor e rastreabilidade individual.
- FEFO (PVPS): Regra operacional que prioriza o vencimento (First Expired, First Out), essencial em setores perecíveis, independentemente do critério contábil adotado.
Embora esses métodos não alterem o fluxo de caixa nominal imediato, eles modificam o timing do reconhecimento das despesas no resultado e a mensuração do ativo no balanço, alterando muitas vezes de forma significativa os indicadores de performance.
A conexão primária entre estoque e margem bruta ocorre via CMV (Custo das Mercadorias Vendidas). Em cenários inflacionários:
- O FIFO reconhece custos históricos (mais baixos), o que infla a margem bruta e o lucro contábil, mantendo o estoque do balanço valorizado a preços de mercado.
- O LIFO prioriza os custos recentes (mais altos), o que reduz a margem contábil, mas oferece uma eficiência tributária superior ao reduzir o lucro tributável.
- O Custo Médio Ponderado dilui picos de preços, facilitando o planejamento interno, embora possa mascarar pressões inflacionárias repentinas.
Para o analista financeiro, entender essa escolha é vital: duas empresas operacionalmente idênticas podem apresentar margens distintas no curto prazo apenas por suas políticas contábeis.
Importante ressaltar que o estoque é um componente crítico do ativo circulante e um driver direto do ROIC (Retorno sobre o Capital Investido). Um crescimento de estoques descolado das vendas sinaliza consumo de caixa, mesmo que a DRE aponte lucros saudáveis.
Além disso, a qualidade do lucro está atrelada à integridade do ativo. Itens obsoletos, danificados ou vencidos exigem provisões para ajuste ao valor de mercado (impairment). O diferimento desse reconhecimento pode maquiar margens temporariamente, mas a correção inevitável costuma gerar impactos severos e concentrados em períodos futuros.
Outro comentário importante diz respeito à liquidez. O estoque é o “pulmão” do capital de giro e dita o Ciclo de Conversão de Caixa. Quanto maior o prazo médio de estocagem, mais tempo o capital permanece imobilizado, aumentando a dependência de endividamento oneroso.
A gestão de excelência busca o ponto ótimo: equilibrar o custo de carregamento (capital imobilizado, armazenagem, risco) com o custo da ruptura (perda de venda, fretes emergenciais, ineficiência produtiva). Liberar capital através da redução de excessos, sem comprometer o nível de serviço, é uma das formas mais eficazes de elevar o retorno sobre o capital da companhia.
O CUSTO DO CAPITAL IMOBILIZADO: O IMPACTO DOS JUROS NA EFICIÊNCIA DO ESTOQUE
Taxas de juros elevadas elevam o custo de carregamento dos estoques, amplificando o impacto negativo do capital imobilizado sobre a rentabilidade. Sob o ponto de vista financeiro, o estoque representa um desembolso de caixa que poderia ser destinado à amortização de dívidas, ao financiamento da expansão orgânica ou à alocação em ativos de baixo risco com liquidez imediata.
Mesmo em empresas desalavancadas, o estoque parado impõe um custo de oportunidade significativo: o capital retido deixa de performar conforme a taxa de retorno mínima esperada do negócio (a chamada hurdle rate). Na prática, a combinação de um estoque médio elevado com juros altos pressiona o ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) e reduz drasticamente a flexibilidade financeira da companhia.
Neste cenário, empresas com ciclos operacionais longos tornam-se particularmente vulneráveis. Elas são forçadas a financiar, por períodos extensos, um ativo que não gera fluxo de caixa até a sua efetiva conversão em venda e recebimento. Em ambientes de política monetária restritiva, a eficiência na gestão de estoques deixa de ser apenas uma meta operacional para se tornar uma estratégia crítica de preservação de margem e valor para o acionista.
CONCLUSÃO: A GESTÃO DE ESTOQUES COMO ALAVANCA ESTRATÉGICA DE VALOR
Em última análise, a gestão de estoques consolida-se como uma alavanca direta do desempenho financeiro corporativo. Sua influência é multidimensional: regula o CMV e as margens operacionais, define a integridade dos ativos no balanço e determina a intensidade do capital de giro no ciclo de caixa.
Como vimos, metodologias como FIFO, LIFO ou Custo Médio Ponderado transcendem a mera convenção contábil; elas regem o timing do custo e a comparabilidade dos resultados, fatores críticos em economias inflacionárias. O sinal de alerta para o investidor e para o gestor surge quando o crescimento dos inventários descola da curva de vendas, quando os índices de giro se deterioram ou quando as baixas por obsolescência se tornam recorrentes: eventos que exigem uma interpretação contextualizada à realidade de cada setor.
Em um cenário de juros restritivos, como o atual no Brasil, o custo de oportunidade do capital imobilizado torna-se proibitivo, elevando o valor estratégico do controle rigoroso de parâmetros, do mix de produtos e dos níveis de segurança. No encerramento desta análise, a máxima prevalece: a eficiência não reside no “estoque mínimo”, mas no estoque ótimo — aquele posicionado no local e tempo corretos, sob riscos monitorados e com a rentabilidade rigorosamente preservada.
Espero que este conteúdo tenha sido útil para aperfeiçoar sua visão no mundo dos negócios. Meu objetivo é sempre trazer análises que unam o rigor técnico à aplicabilidade prática. Se você aprecia o meu trabalho e deseja acompanhar outros insights, pesquisas e comentários sobre Finanças em geral, convido-o a me seguir nas redes sociais em @carlosheitorcampani. Siga também o Leggio Group pelo LinkedIn em @Leggio Group. Vamos continuar essa conversa por lá!
* Carlos Heitor Campani é PhD em Finanças, CNPI, Diretor Acadêmico da iluminus – Academia de Finanças, Sócio da CHC Finance e da Four Capital, além de Pesquisador da ENS – Escola de Negócios e Seguros.

