https://valor.globo.com/financas/coluna – 19/02/2026
Por Decio Bapttista Santos e Maurício Bassi (*)
Trajetória acompanha transformação do sistema financeiro, que gradualmente deixa de depender do crédito bancário e avança para modelo baseado no mercado de capitais.
Poucos produtos do mercado de capitais brasileiro passaram por uma transformação tão profunda quanto os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Previstos na regulamentação brasileira desde 2001, os FIDCs por muito tempo foram vistos como estruturas complexas, e o mercado frequentemente tinha dificuldade para compreender o risco das operações.
Ao longo de quase um quarto de século, o cenário mudou completamente. Os fundos de direitos creditórios, antes concentrados em operações de pequenas e médias empresas, amadureceram. E, assim, começam a abrir espaço para novos produtos, como os FIDCs “high grade”, produtos estruturados a partir de carteiras de grandes empresas bancarizadas.
A evolução é resultado de um processo contínuo de aprimoramento do mercado e do regulador. Ao longo dos anos, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o mercado ajustaram a rota sempre que necessário. Cada fragilidade operacional, informacional ou regulatória identificada gerou respostas em forma de ajustes normativos, reforço de governança e incorporação de novos aprendizados.
A digitalização e a escrituração eletrônica tornaram os processos mais rastreáveis e viabilizaram volumes antes impensáveis, aproximando o mercado da marca de R$ 1 trilhão. A Resolução CVM 175 também inaugurou um novo patamar de transparência ao exigir o registro das operações, tornando o lastro dos FIDCs muito mais tangível para investidores e gestores.
Na prática, o FIDC deixou de ser o que para alguns ainda poderia ser visto como uma “caixa-preta de recebíveis” para se tornar um veículo transparente, em que é possível enxergar a carteira, o giro, a qualidade do cedente e o comportamento do crédito de forma detalhada.
Houve um tempo em que falar de FIDC na Faria Lima era difícil. O produto era pouco compreendido e tinha baixa competitividade frente a alternativas tradicionais de renda fixa. Isso ficou para trás. Hoje, tesourarias de grandes bancos, seguradoras e gestoras investem em FIDCs. Em vez de manter uma rede cara de agências para atender diretamente o “middle” e o “small corporate”, muitas instituições preferem comprar cotas seniores bem estruturadas, com CDI acrescido de prêmio e forte subordinação.
Isso se traduziu em um fluxo de recursos maior para os FIDCs. Em alguns momentos, supera até a capacidade de absorção da própria indústria, ainda em adaptação às novas regras, às exigências do registro e ao acesso gradual do investidor de varejo.
A entrada da pessoa física será crucial para o futuro do produto. A Resolução 175 abriu espaço para que investidores de varejo possam, pela primeira vez, acessar diretamente FIDCs dentro de parâmetros definidos. O processo deverá ser semelhante ao caminho trilhado pelos fundos imobiliários anos atrás.
É justamente na combinação de transparência, escala e abertura ao varejo que surge o ambiente ideal para os FIDCs high grade. O registro de lastro, a visibilidade das carteiras e a possibilidade de estruturar veículos voltados à pessoa física tendem a atrair um novo tipo de cedente – grandes empresas bancarizadas – com histórico sólido, governança estabelecida e capacidade de originar recebíveis de boa qualidade.
Essas empresas passam a enxergar o FIDC como alternativa ou complemento ao crédito bancário. Como apresentam risco menor, podem captar a taxas inferiores às praticadas por cedentes típicos da “primeira geração” dos FIDCs, ainda assim oferecendo ao investidor um prêmio relevante frente aos títulos públicos.
Em essência, um FIDC high grade combina lastro de qualidade, emissor robusto, estrutura bem desenhada e prêmio enxuto, porém consistente. Essa transição não substitui a anterior. Os fundos voltados a empresas médias, menos bancarizadas e com spreads mais altos continuarão existindo. O que surge agora é uma camada adicional no ecossistema, mais próxima do crédito corporativo tradicional, que preserva as características e vantagens do modelo FIDC.
Em tempos de maior cautela com produtos financeiros, a governança é um diferencial pouco percebido dos FIDCs. Em um único veículo, há pelo menos seis agentes independentes monitorando o mesmo ativo: consultor de crédito, gestor, administrador, custodiante, auditor independente e agência de rating, além da supervisão da CVM. Essa multiplicidade de agentes reduz assimetrias e eleva o padrão mínimo de controle.
A trajetória dos FIDCs acompanha a transformação do sistema financeiro, que gradualmente deixa de depender do crédito bancário e avança para um modelo baseado no mercado de capitais e na gestão profissionalizada de recursos. Com mais transparência, regulação modernizada e a entrada de cedentes e investidores de melhor qualidade, a indústria avança para um novo patamar. E os FIDCs high grade tendem a ser protagonistas dessa próxima fase do crédito privado no Brasil.
Decio Bapttista Santos é cofundador da Liberum Ratings
Maurício Bassi é cofundador da Liberum Ratings
E-mail: decio@liberumratings.com.br
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