https://valor.globo.com/financas/coluna – 13/01/2026.
Por Cristiano Greve (*)
Com consolidação de boas práticas, maior liquidez e ecossistema mais integrado, setor poderá atingir novos patamares de relevância.
Nos últimos anos, os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) deixaram de ser uma alternativa de nicho para se consolidarem como um dos motores mais dinâmicos do mercado de capitais brasileiro. A velocidade desse crescimento é significativa: segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o total de FIDCs saltou de 1.063, no fechamento de 2020, para 3.653 em setembro de 2025. Em termos de patrimônio líquido, a evolução é ainda mais expressiva: de R$ 178 bilhões para R$ 813 bilhões no mesmo período, um avanço de 4,5 vezes em apenas cinco anos.
Mas, apesar dos números robustos, a indústria de FIDCs ainda está longe de seu ápice. O que se vê é um setor em franca expansão, sustentado por fundamentos sólidos e por transformações estruturais que ampliam seu papel no financiamento da economia real.
A essência desse instrumento não é exatamente nova. Desde que os europeus se lançaram aos mares, no século XV, as grandes navegações eram viabilizadas por contratos que garantiam aos patrocinadores direitos sobre lucros futuros das expedições – uma antecipação, ainda que rudimentar, da lógica que move os FIDCs. Em suma, o que se negocia nesses fundos é a compra, no presente, de direitos a serem pagos no futuro. A diferença é que, hoje, essa operação é conduzida com rigor técnico, regulação sofisticada e gestão profissional.
Um dos fatores que explicam o ímpeto recente dos FIDCs é o processo de desintermediação bancária. Empresas de diferentes portes passaram a buscar nos fundos uma alternativa eficiente e competitiva para captar recursos, reduzindo a dependência do crédito tradicional. Essa tendência foi reforçada por mudanças regulatórias que democratizaram o acesso, permitindo que um número crescente de investidores – inclusive institucionais e de varejo qualificado – incluísse cotas de FIDCs em suas carteiras.
É importante frisar que o FIDC não é um empréstimo baseado em risco, mas um veículo com lastro, já que sua estrutura se ancora em ativos reais (cessão de recebíveis, contratos de empréstimo, notas comerciais, faturas de cartão de crédito, contas de água, luz e gás, entre outros). O gestor compra fluxos futuros de pagamentos a um valor presente no momento da cessão do crédito para o FIDC, que se torna o dono desse crédito. Todo esse processo ocorre por meio de um conjunto de regras definidas em seu arcabouço legal (regulamento, contrato de cessão, minuta do produto), fazendo um ajuste ao risco do crédito e à expectativa de retorno.
Apesar da expansão, há um elemento essencial que ainda limita o amadurecimento desse segmento: a pouca liquidez de um mercado secundário para cotas de FIDCs. Essa restrição inibe a entrada de novos participantes e tem impacto sobre a eficiência na precificação dos ativos. À medida que o ambiente regulatório e tecnológico evoluir para permitir maior negociabilidade, o potencial de crescimento dessa indústria poderá ser significativamente expandido.
Outro aspecto fundamental é a qualidade da estrutura e dos participantes envolvidos. Um FIDC não é apenas um conjunto de ativos; é uma engrenagem que depende de gestores, administradores e demais prestadores de serviço. A solidez do fundo, portanto, está diretamente ligada à reputação e à competência de quem o estrutura. Profissionais e companhias com histórico comprovado de gestão, capacidade analítica e disciplina na originação e acompanhamentos dos créditos são os verdadeiros garantidores da perenidade e da confiança nesse mercado.
Assim, embora os FIDCs vivam um momento de notável expansão, é prematuro falar em maturidade. O que se observa é apenas o início de um ciclo que tende a se intensificar à medida que a economia brasileira se torne mais diversificada, digital e descentralizada financeiramente. Com a consolidação de boas práticas, maior liquidez e um ecossistema mais integrado, o setor poderá atingir novos patamares de relevância.
Os FIDCs têm demonstrado ser um elo fundamental entre o capital e a atividade produtiva. Se o passado recente foi de avanço expressivo, o futuro promete ser de consolidação e sofisticação. A indústria ainda está longe do seu ápice – e é justamente essa distância que torna o horizonte tão promissor.
(*) Cristiano Greve é sócio e head de estruturação da Integral Investimentos
E-mail: comunicacao@integralinvest.com.br
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