https://valor.globo.com/opiniao/coluna – 07/01/2026.
Por Roberto Luis Troster (*)
Caso do Banco Master guarda semelhanças inquietantes com a liquidação do Banco Santos.
– Foto: Victor Moriyama/Bloomberg e Davilym Dourado/Valor.
O episódio envolvendo o Banco Master mostrou a resiliência do Sistema Financeiro Nacional (SFN): a ausência de pânico e a capacidade do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em absorver perdas. No entanto, também revelou que falhas diagnosticadas há duas décadas continuam presentes. O problema central não é o Daniel Vorcaro, mas a arquitetura do sistema. É imperativo converter falhas em aprendizado institucional.
O caso do Banco Master guarda semelhanças inquietantes com a intervenção no Banco Santos, em 2004. Foi uma instituição que saltou da 125ª para a 12ª posição no ranking em apenas uma década, impulsionada por uma narrativa sofisticada e pela figura de um controlador com alto destaque social. Aquele crescimento, como agora, sustentava-se em ativos de baixa qualidade, uso excessivo de derivativos e opacidade, além de relações estreitas com entes públicos e fundos de pensão.
As avaliações de ratings e das auditorias externas que validaram os balanços do Banco Santos foram questionadas então. Em 2005, houve uma reunião com diretores do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários, presidentes das empresas de rating, eu e outros interessados. Nela se analisaram as falhas e se propuseram algumas medidas.
Mesmo assim, a história se repetiu com o Banco Master, com agravantes. Hoje a plateia é maior, a informação circula mais rápido, o volume sob responsabilidade do FGC aumentou, as plataformas de investimento ganharam um papel importante na distribuição de ativos e o Master tinha um Conselho Consultivo Estratégico com nomes de peso e advogados renomados. O que permitiu essa reincidência foi a difusão de responsabilidades no SFN.
É sintomático que, apesar dos sinais de alerta, o gatilho para a intervenção não tenha sido o monitoramento técnico do sistema, mas sim uma denúncia de fraude encaminhada pelo Sindicato dos Bancários à Procuradoria Geral da República que acionou a Polícia Federal e o Banco Central. Até aquele momento, agências de rating, plataformas, auditorias e o próprio Banco Central desempenharam papéis secundários ou omitiram-se.
As falhas de análise foram flagrantes. Em outubro de 2024, uma agência de rating elevou a nota do Master para “A”, justificada pela qualidade de crédito alta e melhoras estruturais e operacionais. Contudo, o balanço de junho de 2024 já mostrava dados alarmantes: para um patrimônio de R$ 4,1 milhões e depósitos de R$ 44,9 bilhões, possuía R$ 18,4 bilhões em operações de crédito, dos quais, R$ 7,0 bilhões em recebíveis a vencer em mais de 5.400 dias (15 anos!) e aplicações em precatórios e outros ativos. Não são números de uma qualidade de crédito alta.
Mais grave ainda: em maio de 2025, o FGC assinou um empréstimo emergencial, de “assistência de liquidez”, de R$ 4 bilhões ao Master. No balanço de dezembro de 2024, 5 meses antes, havia R$ 29 bilhões em títulos e valores mobiliários. Se possuía tamanha liquidez em papel, por que precisou de assistência emergencial? O princípio bancário de “não colocar dinheiro bom sobre dinheiro ruim” foi ignorado.
Plataformas de investimento distribuíram bilhões em ativos do Master. A justificativa é que tinha um índice de Basileia elevado, o balanço era auditado e o rating de crédito aceitável. As falhas das avaliações estão em analisar conformidade, números agregados do balanço e índices financeiros, e em não analisar desempenho e detalhes do desempenho. Houve um atraso nefasto entre a percepção dos sinais de alerta e a tomada de decisão pelos atores envolvidos.
A demora em intervir foi onerosa. O valor das captações evoluiu de R$ 5,1 bilhões em 2020, para R$ 9,0 bilhões no ano seguinte, depois para R$ 18,3 bilhões, depois R$ 32,7 bilhões e depois R$ 64,4 bilhões em 2024. Em números redondos quase dobrou ano após ano. Uma limitação das captações seguradas pelo FGC antes teria minimizado as perdas.
Pode ter havido uma precipitação em determinar a liquidação extra judicial em vez de um Regime de Administração Especial Temporal (RAET). A liquidação implica na destruição dos intangíveis – valor da marca, licenças, sistemas de tecnologia e clientela. Há também um deságio maior para venda de ativos de um banco em liquidação. Há registros de que havia um interessado estrangeiro (grupo Fictor) em comprar o banco. Um RAET teria dado tempo para confirmar ou não sua exequibilidade.
O ponto central é identificar quais medidas tomar. O mais urgente é acabar com a difusão de responsabilidades. Uma atuação preventiva teria reduzido prejuízos e permitido um desfecho diferente para a instituição. Uma revisão da arquitetura institucional do SFN é oportuna.
Todas as instituições, por melhores que sejam, estão sujeitas a falhas. Auditar o desempenho das auditorias, das empresas de rating, do FGC, das plataformas de investimentos e do BC deve ser uma rotina para assegurar o bom desempenho do sistema. A independência do BC e das demais instituições deve vir acompanhada de uma aferição rigorosa de seu desempenho.
Um exemplo, o Banco Central do Brasil, no IF. Data, que divulga dados sobre os balanços das instituições financeiras, reduziu de 12 conjuntos de dados para 4 no início do ano. Omitiu dados vitais sobre carteiras de crédito, tomadores, modalidades, prazos de vencimentos, atividade econômica, níveis de risco, localização e número de clientes e de operações. Um retrocesso.
O modelo do FGC pode ser aprimorado. Projetado para proteger o pequeno investidor, é oportuno redefinir esse perfil: o limite de R$ 250 mil parece excessivo. Se reduzido para R$ 50 mil, o seguro cobriria 98,3% dos depositantes e reduziria a exposição do fundo em 56%. Apesar de ser uma entidade privada, o seguro tem natureza de bem público e deve ter prerrogativas de aferir riscos, atuar precocemente para mitigá-los e propor ajustes na regulação dos SFN.
As plataformas de investimento são essenciais para a liquidez de instituições menores, devem responder pela qualidade dos ativos que selecionam e sua remuneração deve ser revista. Auditorias e agências de rating também precisam de maior responsabilização, pois não são apenas verificadoras de dados, mas a linha de frente da segurança do mercado.
O evento do Banco Master é um sintoma de um mal maior. A mesma “difusão de responsabilidades” que fragiliza o SFN é a que mantém 80,4 milhões de brasileiros negativados e que compromete a gestão do clima, da água e da dívida pública. O sistema funcionou para evitar o pânico, mas falhou e falha em proteger o país do custo da ineficiência. É imperativo aprender com erros e melhorar.
(*) Roberto Luis Troster é economista
Correio: robertotroster@uol.com.br






